 |
|
|
1990
1990. Pátio da escola. Fila pra sala de aula. Lá na frente, cabelos se jogavam ao vento e cintilavam ao sol. Menina. Eu quieto sentado num banco de cimento a uns quinze metros, apenas a olhava. Coração agora rápido. Pupilas dilatavam-se, quase uma miragem. Pouco depois vi um sorriso que apenas concluía o que mais parecia uma obra perfeita. Nariz, boca, olhos, cabelos... Nada mais existia ao redor, só menina. Não era chato acordar cedo pra ir pra escola. Olhá-la era motivação pra tudo, perdoe-me Maslow... Nada a superava. Algo possuía, até hoje não sei. Duas crianças de dez anos. Eu, excessivamente tímido. Ela, nem sei. Poucas vezes pude ouvir o som de suas palavras. Poucas vezes me aproximei. Muitas vezes sonhei. Naquele ano acho que me apaixonei pela primeira vez, só de olhar. Como era bom olhá-la com meus olhos de criança... Como era bom quando olhava pra mim. Um dia soube seu nome. Adely, Adele, ou Adeli? Até hoje não sei. Só sei que era o nome mais belo do mundo... Mas não a conheci no pátio. A conheci no dia 19.04.90, 2º andar do prédio, sala em que nunca pusera os pés, apresentação do Dia do Índio. Imagem na cabeça pra sempre. Durante o restante do ano meu coração e pensamentos tinham a forma, o cheiro, a cor, a luminosidade e a intensidade de Adele. Cartas, poemas, recados. Alguns entregues, outros guardados, outros rasgados. Fim de ano, tardezinha, quase noite, céu escuro chuviscando, penúltima vez que a vi descendo as escadas. Última vez, no pátio sentada. Depois disso nunca mais. Foi pra Sobral. Nunca mais.
Escrito por Josué Mendonça às 23h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Formigas no chão
Um corpo sobre um prédio numa avenida. Uma fronteira. Em baixo, pra lás e pra cás. Pés, tamancos, sapatos. Tudo em perfeita harmonia. A vida em movimento, os pés em movimento, os carros em movimento. O vento, a poeira, a luz, o mundo em movimento. Em cima, a alma presa, subjugada, não sabia escapar, então tolerava. Em baixo o pipoqueiro, a criança segurando o balão, o homem vendendo cartão. Em cima o silêncio do vazio, a introspecção. Talvez ninguém o visse. Cada qual com seus passos e pensamentos escrevendo circunstâncias de suas vidas, em ritmos lentos ou rápidos. Cada um consigo ou com o outro, mas o corpo só. Só de si, só da vida, só do mundo, só das vozes, só dos toques. Um vento passou... Naquele instante não haveria mais súplicas, nem conselhos, nem remédios, nem diálogos, nem idéias. Um vento separava a cor da escuridão, o sonho da frustração, a vontade da abdicação. Em baixo as formigas, um palhaço, um cidadão. Em cima um corpo, despido de sentido, foragido da essência, rejeitado pelo ego, massacrado pelas próprias mãos. Não busca mais nada, não quer mais nada, nada lhe interessa, nada lhe desperta. Só o ímpeto de “desexistir”. Nesse instante tudo é nada, e o nada seu tudo. Tudo já foi, e o mais nunca será. Tudo nunca foi. Não é pesadelo, não é desespero, é o frio de “desalmar-se”. Não tem lágrimas, já secou. Não tem volta, não tem jeito, não tem rota, não tem porta. Uma nuvem apareceu, escureceu. Em baixo tudo acontece, tudo aborrece, tudo contamina, tudo anima. Em cima, o corpo esquece que já foi gente, que tem lembrança, que já andou. Nesse instante, minúsculo instante, o som sumiu, a dor sumiu, o pensamento sumiu, o espírito sumiu. O corpo agora não mais estático, inclina-se definitivamente para a frente e... fronteira. Cruzou. Pluma no espaço. Gravidade. O tempo parou. Cai, vai caindo, caindo, caindo... Um vento passou, uma nuvem passou, o mundo parou, o instante se quebrou. Não tem como voltar, não tem com ajudar, não tem como fazer. Um susto, um frio, um suspiro, último suspiro, chão. Lá em baixo, sapatos, tamancos, formigas, palhaço, homem vendendo cartão, menino segurando balão e um corpo abraçado ao chão. Agora sem pulsação, sem rejeição, sem conversação. Um corpo beijando o chão. Sangue no asfalto. Corpo coberto com papelão.
Escrito por Josué Mendonça às 01h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Até que a abdução vos separe...
Dizem que a única certeza na vida é a morte, mas confesso que estou fortemente inclinado a discordar desse senso comum. Conforme pesquisa recente realizada nos EUA, cerca de um milhão de pessoas naquele país disse já ter sido abduzido - vale salientar, um milhão que “voltou”, provavelmente um outro milhão ficou por lá, confirmando assim minha nova suposição. Desta forma o discurso matrimonial deve ser cuidadosamente alterado para algo como "até que a morte ou a abdução vos separe", ou frase semelhante...Afinal todos nós estamos sujeitos a um seqüestro alienígena, ao estarmos em casa, no trabalho, na rua, no banheiro, no quintal, em cima do telhado, ou fazendo qualquer outra coisa mais ou menos útil. Um dos problemas é que não avisam, ou seja, não dá tempo de arrumar nem a si, nem as malas. Para as pessoas vaidosas isso se torna um grande problema. Ser abduzido sem ter tempo pra pentear os cabelos, escovar os dentes ou colocar um perfume seria um desastre. Já chegariam ao outro planeta com “cara de stress” e talvez por isso não fossem bem recepcionadas. Eu, particularmente, gostaria de saber se existem casos de abdução com data e horas marcadas, porque, honestamente, gostaria de agendar uma. Sempre gostei de viajar e, provavelmente, esta viagem não teria custos de passagem nem de hospedagem, tudo por conta dos amigos cabeçudos, o que a torna ainda mais atrativa. Mas tenho algumas dúvidas, por exemplo, será que lá tem muriçoca? Porque não me adapto bem dormir com mosquiteiro ou usando repelentes. Como faria pra me comunicar? Já existe algum dicionário português x língua alienígena? Onde dormimos? O que comemos? Precisa levar cartão de crédito? Será que lá o celular fica fora de área? Posso acessar internet? Poderia levar câmera fotográfica para registrar os pontos turísticos? Precisaria levar RG ou CPF para uma eventual situação burocrática? Será que lá tem ataques terroristas, terremoto, furação? Paga pedágio? Tem fila para entrar? Precisa fazer algum cadastro? Pessoas com nome no SPC enfrentariam algum tipo de restrição? Poderia ficar por lá tentando alguma vaga de emprego? Será que encontraria algum vendedor de hot-dog? Porque acho que não vivo sem... Encontraria Jodie Foster por lá? Seria um sonho... Por último, seria interessante me darem um “atestado de abdução”, ou alguma outra espécie de documentação comprobatória a fim de apresentar na empresa, pois deduzo que só minhas lembranças não se constituiriam prova concreta. Na volta, realizaria o sonho de escrever um livro, ao qual daria o título de “Memórias de um abduzido” ou “Viagem interplanetária”, talvez esse segundo causasse maior impacto na mídia. Enquanto esse dia não chega, fico imaginando como seria legal tudo isso. Quem sabe a experiência que adquirisse por lá pudesse ser acrescentada ao meu currículo. Quem sabe não me apaixonaria por alguma E.T, apesar de que talvez não pudéssemos multiplicar... Creio também que eles contam com altíssima tecnologia e eu poderia voltar mais belo e forte! Seria uma revolução!
E para aqueles que têm muito medo da morte, com salientei no início, fica a esperança de uma abdução (só de ida), livrando assim o indivíduo desse mal que tanto teme e dos custos funerários.
Escrito por Josué Mendonça às 15h59
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |