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Pegadas à beira do mar
Os grãozinhos de areia enroscavam-se entre os dedos de meus pés e naquele momento sentia paz. O mar engolia o escuro da noite e um vento morno bailarino, de mãos dadas à minha alma, rodopiavam no espaço, leves feito folhas secas de outono. O passado deixara de existir e o futuro era... o próximo passo. Um andar sem rumo mas com destino certo. As palmas das mãos se aqueciam enquanto os olhares vagavam por cada local inexato daquela paisagem. Água e terra se tocavam e se beijavam. Dedos se entrelaçavam tentando imitar a harmonia do universo que nos envolvia. Um olhar mergulhava em outro em busca de águas transparentes que revelassem algum mistério. As palavras eram mudas. Só o mar, cujo ronco das ondas reverberava dentro de mim, e a lua a vigiar. Entendi que estrelas não eram para contar, mas para servir de companhia a pés descalços que se propunham a marcar areia branca e fofa. Quisera eu ter instrumento pra registrar o momento do silêncio absoluto do mundo, da existência em pegadas, de destinos que se entreolhavam. Respirar não era apenas absorver oxigênio, mas degustar a energia proveniente dos corpos celestes e terrestres que por ali estavam. Não havia planejado aquele encontro. As estrelas em comunhão com alguns planetas o haviam arquitetado, e eu apenas aceitado. Quis congelar cada circunstância e sentimento, mas o ar quente oriundo do mar não o permitiu, e eu apenas inconformado. Minha casa estava longe e eu imaginava uma vida sem casas, almas nômades dançando ao ritmo e ronco das ondas. Minha gravata ficara no quarto e eu imaginava uma vida sem papéis, crianças recortando ou pintando com pincéis. O eixo do planeta era no encontro das palmas das mãos e lá se preservava o equilíbrio perfeito. A gravidade puxava pra cima, para que os pés não se atolassem em suas próprias lamas. O sentido da vida era o de perpetuar a coexistência de dois sentidos que se fundiam. A direção era pra dentro, sempre pra dentro de cada um. Nesse dia entendi que a vida podia ser luz, água, frio, calor, ou pegadas intermináveis à beira do mar.
Escrito por Josué Mendonça às 01h28
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Dedos soltos
Eu disse que iria. Naquele instante, vi um fio de lágrima tocar-te o rosto, mas eu não mudaria de idéia. Deixaria muita coisa para trás e aquela lágrima escorrendo solitária naquela noite de dezembro. Arrependo-me de não te ter deixado o poema que me pediste, das flores. Mas leste, e suponho que aquelas palavras acomodaram-se em algum lugar no teu coração. Eu queria ter ficado ao teu lado. Queria ter tocado tua alma mais vezes, ter refletido teu olhar e sentido o suor de tuas mãos muito mais. Porém o tempo me venceu. Uma estrada quebrou-se em duas e não haveria remendo. Como era bom não precisar explicar-me para ti. Como era bom saber que entendias os ritmos de meu coração. Tua voz é um eco. Tuas poucas cartas eu as guardo. Esqueci-te, mas quero que saibas que jamais te rejeitei dentro de mim. Nunca mais te vi, mas quero que saibas que no infinito do meu céu estrelas sempre serão bem-vindas, seja qual for a estação em que surgirem.
Não soltei teus dedos porque quis. A correnteza nos separou. Trago comigo a certeza de que as ondas te levaram pra o lugar que sempre quiseste. A cada passo que dou mais seguro fico de que o tempo, antes vilão, torna-se luz sobre tudo que outrora era escuridão.
Escrito por Josué Mendonça às 01h12
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