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Não sei.
Eu não sei até que ponto podemos ser tão insensíveis.
Eu não sei até que ponto podemos nos desumanizar e desumanizar o outro.
Eu não sei até que ponto podemos ser tão mesquinhos, hipócritas e medíocres.
Eu não sei até que ponto podemos ser tão brutos e egoístas.
Eu não sei até que ponto podemos odiar o outro.
Eu não sei até que ponto podemos nos agredir a nós e aos outros.
Eu não sei até que ponto podemos desacreditar de nós mesmos.
Eu não sei até que ponto podemos ser tão cegos.
Eu não sei até que ponto somos capazes de mentir.
Eu não sei até que ponto podemos viver fazendo de conta.
Eu não sei até que ponto somos capazes de explorar e sermos explorados.
Eu não sei até que ponto podemos enganar e sermos enganados.
Eu não sei até que ponto podemos confiar no outro.
Não sei.
Escrito por Josué Mendonça às 01h48
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Goles de café
Verônica sentou-se numa das poucas cadeiras que ficavam junto à porta e pediu um café forte naquela manhã. Eu, à sua frente, apenas a olhava, observando o movimento de sua garganta em cada gole que dava, como se não houvesse nada mais interessante para se observar naquele momento. Verônica alternava entre goles e expressões de sorriso quase imperceptíveis, olhando pra todos os cantos e quase pra mim. Eu viajava, como sempre viajei em situações de silêncio com palavras engolidas misturadas a café. Na noite passada, eu pensava em mim como matéria constituinte do universo, e me imaginava adubo pra plantas, refeição pra bactéria ou qualquer coisa um tanto mais nobre... Mas eu cria que não era apenas isso e tentava fazer com que Verônica me enxergasse além disso. Ficava me imaginando como apenas alma e já que dizem que os olhos são suas janelas eu, nessa condição, punha meus cotovelos sobre as amplas janelas de meus olhos e acenava pra Verônica cobrando dela um simples olhar que me percebesse. O tempo foi passando, o café foi acabando e Verônica só tinha olhos pro colorido do mundo físico: o fardamento vermelho dos garçons, o amarelo do suco de cajá da mesa ao lado, e todas as outras cores que me roubavam a oportunidade de aparecer. Eu, da janela, acenei com as mãos durante vários minutos quase intermináveis e nada. Cansado, fui escorregando, escorregando até que só restaram na janela pontas de dedos e cabelos. Verônica terminou o café e decidiu olhar pro que restara de mim. Perguntou-me sorrindo no que eu estava pensando durante aqueles minutos de silêncio.
Eu prontamente respondi :
- Bactérias.
Escrito por Josué Mendonça às 01h29
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Olhos de Jabuticaba
Juliana, pequenina, olhava nos olhos de sua avó perguntando-lhe sobre tudo o que o mundo poderia suscitar-lhe dúvidas. Sua avó, calmamente, como que tocando piano no braço da cadeira, balançava-se, rindo pra si, expondo as dádivas do tempo em sua testa, parecia estar retornando a cada ano que vivera até ali. Juliana, quatro aninhos, com olhos parecendo duas jabuticabas e finos cabelos pretos jogados ao vento que corria por acaso naquela sala, continuava a olhar fixamente para a avó, esperando qualquer coisa que não fosse o simples silêncio. Juliana continuaria com muitas perguntas durante a vida... Sua avó continuaria com muitas respostas... A tarde foi caindo e Juliana agora não se incomodava mais com suas dúvidas. Corria de um lado pro outro da sala feliz como um passarinho. Mergulhada em sua vida, Juliana não pensava em mais nada, apenas vivia. Pés descalços no chão e pirulito na mão.
Escrito por Josué Mendonça às 23h30
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