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Tv no divã
Um jovem senhor chegou-me um dia na loja e perguntou-me enfaticamente se havia tv de 20” histérica. Nesse exato momento o espírito de Freud invadiu-me os pensamentos e fui conduzido a alguns meses atrás, quando me encontrava junto a uns amigos discutindo o pai da psicanálise e a histeria. Freud, segundo me informaram, foi quem havia abordado de forma mais profunda a questão e a conceituado como a entendemos hoje. Em uma de suas teorias, ele associava histeria a traumas ou desejos sexuais reprimidos. Uma mulher que não realizasse durante muito tempo seus desejos sexuais poderia apresentar sintomas fortes de histeria. Tudo isso em minha mente (sexo, histeria, Freud, traumas, grito) naquele instante em que o homem olhando atentamente pra mim, com uma postura totalmente séria, esperava por uma resposta simples como: “Sim, senhor, nós temos tv histérica”. De alguma forma haveria sentido em uma tv ser histérica caso eu a aumentasse em seu último volume e quem sabe ele não estivesse precisando realmente disso... Estéreo e histérica passaram a ser quase sinônimos em minha cabeça e qualquer dissociação verbal que eu fizesse poderia conotar crueldade, tanto pela semelhança já provada de sentidos como pelo constrangimento a que o homem seria submetido ao ser indiretamente chamado de ignorante.
Mas arrisquei e disse também enfaticamente que tínhamos tvs estéreo. A primeira consequência foi um ar de conflito intelectual em seu semblante. A segunda: não vendi. Aquela palavra havia soado estranha aos seus ouvidos, pelo menos com relação a tvs. Novidade. Ele agora voltaria pra casa na dúvida entre qual de nós era o burro da estória: o que chamara de “estéril” uma tv que naturalmente não poderia procriar, ou o que olhava para uma mono pensando ser histérica...
Escrito por Josué Mendonça às 20h15
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Pontiagudas
Juliana olhava pro seus finos pés arranhados com alguns fios de sangue escorrendo. Perguntou-me onde estavam as sandálias e eu respondi que não havia sandálias.
Juliana tinha forte impulso para atingir seus objetivos e continuava arranhando seus finos pés. Eu a acompanhava. Cada pedra uma dor, cada dor uma lição, cada lição uma fase superada. Juliana era insistente. Juliana era incansável. Juliana era destemida. Com sangue e dor continuava a arranhar seus finos pés.
Caminhar sobre pedras... Juliana caminhava sobre pedras porque não tinha sandálias nem sapatos justamente naqueles momentos em que mais precisava. Tropeçava. Desequilibrava. Ajoelhava-se, mas se erguia e continuava a olhar pra frente. Quando olhava pra trás via o rastro da dor, do sacrifício e dava mais valor à sua vida e à sua luta. Juliana era frágil e forte. Frágil nos pés. Forte de espírito. Quando lhe perguntavam como estava, ela respondia: “Andando sobre pedras”. Quantas pedras... Quanta luta... Quanta dor... Juliana persistia... Juliana sempre persistiu. Finos pés sobre pedras. Fios de sangue. Arranhões.
O vento forte soprava. Tempestades. Céu escuro. Caminho de pedras quase infinito. Juliana era uma guerreira. Poucas pessoas viam seus pés. Olhavam suas mãos porque eram belas. Olhavam seus cabelos que eram soltos. Juliana às vezes cantava, às vezes sorria, às vezes dormia, às vezes cansava. Juliana andava sobre pedras.
Escrito por Josué Mendonça às 23h24
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