Literalmente falando


“E o pior é que é”

 

Seu Zé era uma homem cético, pelo menos ao meu ver com relação a eventos da natureza. Sabia colocar tijolos sobre tijolos em construções mirabolantes e o fazia sempre com muito esmero. Era nordestino do “interior brabo”, mal levantava a cabeça, mal se pronunciava. Pra ele tudo estava sempre bom. Tinha belas filhas e uma esposa meio “avexada”. Numa das vezes em que houve um eclipse lunar ele estava passando uns dias conosco. Eu lhe disse que naquele dia, ou melhor, naquela noite a lua iria sumir através do efeito do eclipse. Primeiro tive que explicar-lhe de maneira científica e prolixa o significado desse evento. Depois quis convencê-lo de que de fato iria ocorrer. Não acreditou. Não sei se por falta de compreensão, por ser cético, ou por pirraça mesmo. Disse-me que queria ver com os próprios olhos. A noite foi passando e eu e seu Zé aguardávamos na varanda de casa aquele momento “mágico”. O que eu achava mais engraçado era que ele olhava pro céu como se estivesse aguardando a volta do Messias ou o fim do mundo, tal era a expectativa e desconfiança que se misturavam em seu olhar. Por mais que eu tentasse convencê-lo de que aquilo se tratava apenas de um acontecimento natural, para ele seria no mínimo sobrenatural.

O tempo foi passando e nada da lua sumir. Seu Zé olhava pra lua, olhava pra mim. Olhava pra mim, olhava pra lua e, fazendo cara de “esse menino quer me enrolar”, aguardava pacientemente o momento em que eu dissesse que tudo aquilo era uma brincadeira. Mas não tardou muito e a lua começou ser “comida”, conforme expressão por ele mesmo usada. Em alguns minutos a lua sumiu e seu Zé, não dispensando sua frase típica, pronunciou: “E o pior é que é!”. Eu, sinceramente, esperava de sua parte uma reação mais entusiasmada acompanhada de palavras novas... Mas, nas verdade, não foram as palavras que falaram, foi a cara de bobo de seu Zé olhando pro céu, agora menos descrente da mágica dos astros e do cosmo. Espalitava os dentes sentado num tamborete e sussurrava: “E o pior é que é””. Gostávamos dele pela simplicidade de sua pessoa. Era um homem pacífico e trabalhador. Sempre de bem com a vida. Foi ele quem construiu nossa casa em Caruaru.

A seu Zé, dedico essa lembrança.



Escrito por Josué Mendonça às 23h12
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Cinema e vídeo, Informática e Internet
MSN - josuetw@hotmail.com
Histórico
  09/04/2006 a 15/04/2006
  26/03/2006 a 01/04/2006
  19/03/2006 a 25/03/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  05/03/2006 a 11/03/2006
  12/02/2006 a 18/02/2006
  05/02/2006 a 11/02/2006
  29/01/2006 a 04/02/2006
  15/01/2006 a 21/01/2006
  08/01/2006 a 14/01/2006
  18/12/2005 a 24/12/2005
  04/12/2005 a 10/12/2005
  27/11/2005 a 03/12/2005
  13/11/2005 a 19/11/2005
  06/11/2005 a 12/11/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  28/08/2005 a 03/09/2005


Outros sites
  ORKUT
  FILOSOFIA PRIVADA
  Blog Roberta Tostes
  Virtual books
  Blog Vanessa
  Blog Raisa
  Estou no Garganta da Serpente
  Estou no Recanto das Letras
  Estou no Usina das Palavras
Votação
  Dê uma nota para meu blog