Literalmente falando


Cara de ressaca

 

Marcelo sentou-se no banco da ponta e, com os cotovelos apoiados no balcão, olhava pra Daniele do outro lado que jogava pra trás seus longos e loiros fios de cabelo, enquanto terminava de tomar seu suco de laranja. No instante em que ela, casualmente, olhou na direção do rapaz, desencandeou-se no cérebro deste um processo neuro-químico-físico-elétrico-hormonal instantâneo, que resultou invariavelmente na criação de imagens quase impróprias, mas nem tanto. Marcelo não era pornográfico. Aliás, era recatado até na imaginação, justamente o lugar onde não haveria (que oportunidade!) possibilidade de ser punido nem discriminado por qualquer tipo de assédio sexual ou violação moral, caso fosse assim interpretado.

Embora não houvesse ingerido nenhuma substância alcoólica, Marcelo olhava para Daniele com cara de ressaca, o que equivale a dizer “uma cara de bobo deprimida”. Bobo, pelo deslumbramento. Deprimida, pela crença enraizada de que ainda que tivesse a chance de nascer de novo não alcançaria jamais o perfil mínimo suficiente para se candidatar à vaga de pretendente. Com cara de ressaca e cotovelos no balcão, fazia de si uma figura bizarra e, por falta de um simples espelho, não se dava conta disso. Daniele, pelo contrário, era, aos olhos de Marcelo, a encarnação da “plenitude da magnificência da beleza da natureza cósmica das constelações interplanetárias do infinito do céu que transcendia o universo absoluto e puro”. Imaginava assim. Nada erótico. Muito simples. Todas as musas que já tinha visto ou de quem já ouvira falar atuaram apenas como figurantes dos figurantes no palco em que a “plenitude da magnificência...” pairava. Era um momento especial. Os olhos de Marcelo, coitados, nunca haviam registrado figura tão especial. Ressecados por não permitirem que suas pálpebras piscassem, pareciam olhos de ET, projetados pra fora, comendo cada detalhe, cada centímetro do corpo e pele da pobre Daniele. Nem a boca conseguia fechar. Um corpo imóvel. Uma alma a deslumbrar-se com as portas inatingíveis do paraíso. Marcelo queria que o suco de laranja jamais terminasse, que o ponteiro do relógio sofresse um ataque cardíaco e paralisasse. Por ele, o mundo poderia acabar ali e só restassem os dois.

Pra cada canto de Daniele que Marcelo olhasse era um suspiro. Olhava pra boca, ah.. olhava pro queixo, ah... olhava pro pescoço, ah... olhava pros olhos, ah... Naqueles momentos não pensava mais em nada. Apenas contemplava. Foi a partir daí que, destaque-se, Marcelo deixou de ser ateu. Não seria possível!!! Hipnotizado com todas as curvas e encantos de Daniele, Marcelo não entendia, por mais ginástica mental que fizesse, como um ser humano (?) poderia ser ao mesmo tempo sonho e realidade, ficção e fato, abstração e concretude, fantasia e verdade. Entretanto, o fato mesmo é que Daniele acabou o suco de laranja e, em movimentos rápidos e bruscos, desceu do banco, pegou a bolsa, equilibrou-se nos tamancos e saiu, virando as costas pro seu fã solitário.

Marcelo não conseguiu entender porque ela agira de maneira tão indelicada e indiferente diante de tamanha veneração.

 

 



Escrito por Josué Mendonça às 02h25
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Verde, amarelo, vermelho

 

Mariana estava mais uma vez naquele poste, cuja luz amarelada confundia-se com a fumaça espessa de seu cigarro. Um cigarro barato, daqueles que acompanham desenhos de caveira no caixão. A noite transcorria bela no movimento dos carros que iam e viam diante de Mariana, com vidros fechados, ar ligado e música suave e romântica. Mas dentro de si, Mariana sentia um inferno de dores e frustrações que pediam mais e mais fumaça pra dentro do que ainda restava de seus pulmões. Carregava no corpo um vestido que talvez já fosse sua sombra e, se algum dia lhe perguntassem: “ei, quem é você?”, ela poderia, sem cometer, sob qualquer aspecto, crime de falsidade ideológica, responder: “eu sou eu e meu vestido”, (vide Ortega y Gasset).

Mas o que me chamava atenção em Mariana era seu olhar, revestido de uma névoa densa que disfarçava os bichos da floresta, um olhar duro e seco, que crucificaria a si e a qualquer alma “viva ou morta” que lhe aparecesse naquela noite.

Mariana comia fumaça e pedia inconscientemente que os céus se abrissem e de lá de cima caísse um raio que partisse ao meio a tudo e a todos. Não havia como tocar em Mariana. Não havia como se aproximar de Mariana. Não havia como ouvir coração em Mariana.

Ela continuava, quase que num ritmo frenético, a jogar pra trás seus poucos fios de cabelo ressecados. Cuspia de instantes em instantes quase no pé. Tossia. Tossia. Encostada no poste, já parecia poste, dura, seca, insensível. Olhava a noite de quem era amante. De fora, ouvia o silêncio de uma avenida indialogável que se abraçava ao seu, sobre gritos sufocados no porão.

Um grilo cantando, a luz amarelada do poste e as outras do semáforo que terminavam por distraí-la: “verde, amarelo, vermelho. Vermelho, verde, amarelo”. Do alto do prédio, uma senhora fechava as janelas e cortinas para não sentir-se invadida pela cores, ruído e vozes da noite. De baixo, Mariana continuava comendo fumaça procurando lembrar da sensação de deitar numa cama macia.

Eu não sabia quem era Mariana.

No outro dia, foi encontrada uma moça abraçada a um poste com batom borrado, pernas arranhadas e um tiro certeiro na nuca.

 



Escrito por Josué Mendonça às 03h34
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