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Faxineira insensível
Juliana bateu a porta. Do lado de dentro, Danilo acocorava-se aos prantos tentando juntar no chão os cacos do romance despedaçado. Com que cola uniria? De que forma ficaria? Quantos remendos teria? Tantos cacos espalhados no tapete... O rapaz, temendo que o vento os espalhasse ainda mais, tratou de fechar todas as janelas. Fechou tudo. Procurava por todos os cantos da sala os pedaços espalhados. Tudo revirou. Agrupava-os desordenadamente. Estava difícil. Não teria ajuda. Tantos cacos. Tamanho caos. Cansado por não saber exatamente por onde nem como começar, decidiu deitar no sofá, e logo pegou no sono. Ao acordar, percebeu que a sala estava limpa. Alguém a havia varrido. Profundamente desolado e decepcionado, pensou: “Insensível faxineira! O meu amor eterno e verdadeiro, além de despedaçado, agora abandonado numa lata de lixo...”.
Escrito por Josué Mendonça às 03h59
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Estetoscópio e testosterona.
Lucas aguardava a sua vez. Iria fazer um exame admissional. Irritado com o calor da sala onde estava, sentara-se justamente em frente a um ventilador e lá ficou até quando foi chamado. Dirigindo-se em passos largos à sala, suplicava mentalmente que aquela consulta fosse realizada em meio segundo. Não gostava de clínicas, até o momento em que entrou na sala. Nesse instante, todos os preconceitos, teorias, formulações, princípios, valores, crenças, argumentos, filosofias, conceitos contra consultórios esvaziou-se feito pneu furado. Estava frente a frente com o esplendor da criação divina. Antes que as pernas trêmulas o atirassem ao chão, rapidamente resolveu sentar. Sentou e respirou fundo. A médica era uma jovem recém-formada. Vinte e poucos anos. Um retrato único do milagre da natureza. Olhos azuis onde Lucas mergulhava e depois ficava boiando, boiando, boiando... Os lábios eram doces (pelo menos assim os imaginava) cintilavam à luz da lâmpada fluorescente, eram um convite tentador feito a maçã do Éden. Cada palavra que saía de seus lábios chegavam aos ouvidos do garoto como o som de uma harpa, a soma das melodias mais suaves e harmônicas do mundo, a voz de uma fada. Olhava seus dedos que pareciam movimentar-se em câmera lenta. Olhava a cor, o formato, o tamanho e a espessura de suas unhas. Olhava suas orelhas segurando alguns fios de cabelo que teimavam em vir pra frente, observando seu desenho e os canais por onde poderiam transitar suas tolas palavras de amor. O nariz era perfeito, um tobogã por onde seu dedo indicador deslizaria até atingir a maciez de uma boca impenetrável.
Olhava o pescoço... quantos beijos daria...
- “Vamos”?, perguntou a jovem médica.
Lucas, voltando ao seu estado quase normal, porque nunca ficaria totalmente normal enquanto estivesse ali, confirmou apressadamente e com absoluta convicção:
- Claro, vamos sim!!
A médica então se levantou com o estetoscópio em mãos.
O rapaz, que estava até então com seus batimentos cardíacos normais, começou a sentir sensível alteração. A cada passo que a médica dava em sua direção, aumentava em dez a quantidade de batimentos por segundo. Era uma situação desesperadora. Ele sabia que quando ela colocasse o aparelho sobre seu peito, iria ouvir uma verdadeira escola de samba, mas não conseguia fazer nada contra essa evolução natural. Era irreversível. Milene, como se chamava, enfim chegou ao seu lado. Posicionou-se as suas costas e, inclinando-se para frente, derrubou-lhe sobre a face seus longos e macios fios de cabelo. Imediatamente, Lucas segurou-se nos braços da cadeira. Apoiou bem os pés no chão. Seu corpo estava teso. Era inútil a tentativa de controlar o incontrolável. Tarde demais. A moça, delicadamente, enfiou os dedos por baixo de sua camisa e começou a puxá-la cuidadosamente para cima. Pobre rapaz, arrepiou-se feito gato ameaçado. Estava apavorado! Seu corpo expelia litros de suor e a temperatura do sangue beirava a da superfície solar. Quando enfim a médica tocou-lhe o peito com o estetoscópio, assustou-se. Parecia de fato uma bomba prestes a explodir. Entretanto, já deduzindo rapidamente o motivo pra tamanha agitação, perguntou-lhe “ingenuamente” se ele estava nervoso por algum motivo.
Alguns segundos refletindo como camuflar a verdade tão primitiva, respondeu engasgando:
- Sim doutora, desculpe-me, mas tenho grande pavor a estetoscópios.
Escrito por Josué Mendonça às 03h16
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A revolta do sapo
Seu Frederico, o sapo mais velho da redondeza estava cansado. Não da idade, mas das malvadezas que as crianças que por ali moravam faziam com ele. Quando saía de casa e precisasse cruzar a rua, podia preparar-se automaticamente para receber pontapés e ácido úrico, quando não, sal puro. Mas nunca era pra matar, era só pra deixar meio aleijado. Frederico sofria demais. Passara na verdade toda a vida sofrendo com isso e já estava definitivamente exausto dessa vida. Não tinha aposentadoria, não tinha mais mulher que morrera há três semanas vítima de uma brincadeira sem graça, não tinha mais saúde, não tinha mais nada. Cansado de receber chutes e ser salgado quase todos os dias feito uma picanha, Frederico organizou-se com seus companheiros mais jovens a fim de planejar uma conspiração. Tudo foi devidamente planejado e executado numa noite que ficou conhecida na história como “a revolta do sapo-cururu”. Milhares de sapos invadiram as ruas, casas, apartamentos, carros, onde havia brecha os anarquistas entraram. Só se ouvia gritos e mais gritos, todo mundo pulando dentro de casa. Era sapo por cima da cama, sofá, estante, tapete, no banheiro, pra onde se olhava se via sapo, e dos grandes, cururus mesmo. Foi um terror total. As crianças malvadas, agora assustadas, com medo de perderem seus dedos dos pés por mordida de sapo, aprenderam a lição. Nos dias que se seguiram a esse episódio nunca mais salgaram nem chutaram pobres e velhos sapos.
Frederico pôde então morrer em paz. Morreu feliz e insosso.
Escrito por Josué Mendonça às 02h36
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Cólica de divórcio
Ana Rita estava decidida. Iria dizer naquela noite mesmo que o namoro estava acabado. Gostava de Felipe, admirava-o em alguns aspectos, mas definitivamente não era o homem que ela queria pro resto de sua vida. Já fazia certo tempo que demonstrava desinteresse pelo relacionamento, mas Felipe parecia estar cego. Era o rapaz mais apaixonado da cidade. Não havia sonho em que Ana Rita não estivesse além, é claro, de ser sempre a protagonista. Já havia esquecido o significado da palavra pesadelo e não precisaria jamais de Freud pra decifrar o que era apenas uma cópia autenticada de seu cotidiano. Era preferível que se lhe roubassem a alma a ver-se afastado de Ana Rita. Era o que possuía de mais precioso, sentia-se um homem feliz e realizado, e seria assim sempre que estivesse ao seu lado. Pronunciava o nome da garota quatrocentas e oitenta e nove vezes por dia, tanto nos úteis quanto nos inúteis. Andava meio maltrapilho. O dinheiro que conseguia com rios de suor, escapulia de suas mãos feito bolas de sabão, convertido em presentes e momentos de lazer junto à sua amada. A hipótese de uma separação surgia aos olhos de Felipe como a total demolição de sua estrutura humana, tornaría-se para sempre um tetraplégico emocional. Amava Ana Rita assim, mais do que a si, mas do que a tudo. Por ela tudo faria. Mas o trenzinho da alegria estava chegando à estação final. Ana Rita tomara três caixas de tranqüilizante e estava psicologicamente preparada para pôr um ponto final na estória.
A campainha tocou. O perfume que invadira todo o recinto acusava a presença do rapaz. Ana Rita, que estava sentada no sofá com as duas mãos sobre as pernas, olhando pro quadro à sua frente que retratava um pintor italiano com aquele bigode extravagante, levantou-se num pulo, respirou fundo e dirigiu-se à porta medindo os passos. Tocou na maçaneta, girou. Quando se viu frente a frente com o indivíduo, demorou três segundos e disse... Não, não disse. Convidou-o simplesmente para entrar. Sentados os dois no sofá, Felipe estranhava a frieza dos gestos e expressões de Aninha, como ele a chamava. Incomodado com aquele iceberg que se erguia segundo a segundo entre os dois, resolveu perguntar por que ela estava diferente, embora no fundo não quisesse ouvir a resposta.
Ana Rita decidira previamente que seria direta, em poucas palavras esclareceria sua posição. Olhou nos olhos de Felipe. Com lábios trêmulos que pareciam flâmula ao vento, mãos umedecidas e pernas quase trepidando, Ana Rita sentia um calor que lhe subia dos pés a cabeça. Queria falar, mas as palavras não saíam. Respirava dando pausas. Desviava o olhar pro bigode do italiano e depois pro namorado. Foi quando Felipe correu para a cozinha a fim de pegar um copo d’água. Teve medo de que a menina desmaiasse. Voltou e ela bebeu. Felipe já pressentia que se tratava de algo muito sério. Desconfiava de todas as possibilidades sem querer acreditar em nenhuma. Impaciente e confuso, Felipe já alterava a voz, quase suplicando a Aninha que falasse tudo de uma vez por todas. Pediu, mas se arrependeu. Seu coração gelou instantaneamente e ele não saberia sua reação diante da suposta fatalidade. Coçando o braço esquerdo feito um cão sarnento, Felipe já estava apavorado, com o coração querendo precipitar-se garganta a fora, zonzo com o giro das paredes que não saíam do lugar. Ana Rita, agora mais assustada, não conseguia concretizar de maneira alguma o desejo reprimido. Foi então que resolveu adiar a decisão. Disse solenemente que não estava em condições de namorar nem de conversar naquela noite, pois estava com cólicas e forte dor de cabeça.
Decepcionado, Felipe voltou pra casa, mas no fundo sentia-se aliviado e até mesmo feliz. Afinal, Ana Rita, pensava ele, jamais teria vontade ou coragem de abandonar amor tão puro e verdadeiro.
Escrito por Josué Mendonça às 02h29
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Ciúme e asfalto.
Fabrícia era uma adolescente ciumenta. Quando ia pra casa do namorado já chegava à porta feito um detetive, olhando pra todos os cantos, esticando os ouvidos, farejando compulsivamente tudo o que poderia exalar cheiro, era algo impressionante, elétrico. Se fora traída em alguma circunstância era muito provável que houvesse vestígios, sinais a interpretar, o que lhe exigia observação cuidadosa em cada mínimo detalhe.
Gustavo, coitado, já abria a porta assustado, temendo ser severamente punido pelos pecados não cometidos nem planejados. Pela forma como lhe abria sempre a porta, pálido e com os olhos arregalados, alimentava ainda mais a desconfiança em Fabrícia, embora seu medo fosse, na verdade, dela puramente. Se tivesse um surto de ciúmes, apanharia ou ficaria de castigo por um longo tempo...
Fabrícia e Gustavo não tinham vida social. Qualquer tipo de relação extra-casal seria intensivamente vigiada e controlada. Não haveria alma nesse mundo que não despertasse ciúmes na menina. Na sala, o controle remoto sempre estava em suas mãos pra mudar de canal diante de qualquer cena ou comercial incitante. Se somassem a censura de todas as ditaduras que o mundo já viveu não se compararia à imposta pela garota. Ela violava impunemente o Estado de Direito Democrático. Nem no Irã haveria tamanha restrição à liberdade... Mas Gustavo, de alguma forma, já estava acostumado a isso. Embora parecesse uma marionete nas mãos da namorada, sentia-se orgulhoso diante do medo que ela demonstrava de perdê-lo. O sentimento de importância, em certo grau, contrabalançava os constrangimentos e momentos em que era exposto ao ridículo. Afinal, aquilo era uma prova de amor, consolava-se Gustavo.
Quando saíam à rua, Fabrícia sempre tropeçava em pedras e calçadas porque definitivamente não olhava pra frente. Mirava apenas nos olhos de Gustavo, rastreando-lhe os movimentos, medindo o ângulo, sentido e direção de cada olhar. Qualquer expressão nova rendia-lhe automaticamente uma série de indagações. Por que está sorrindo? Porque está com essa ou com aquela cara. Por que arrumou o cabelo? Por que virou pra trás? Porque está cantando esta música? Você está pensando em que? Porque está olhando pra mim assim? Era um inferno. Preso à vigilância incessante da namorada, Gustavo sentia dificuldades até de respirar. Era algo sufocante. Começava a sentir-se profundamente incomodado com essa situação. Nada podia. Tudo estava sujeito a análise e questionamentos. Não podia mais movimentar-se, comunicar-se, enxergar, ouvir, chorar, sorrir, pensar, ufa! Respirar ainda podia, até o momento em que não estivesse inalando o cheiro de um perfume vagabundo de uma vagabunda que por eles passasse. Controle total. Gustavo estava absolutamente encurralado no sistema de segurança que a namorada havia desenvolvido. Aliás, ela era o próprio sistema em si, cuja eficiência jamais fora alcançada por tecnologia alguma no mundo.
Acompanhava o rapaz em todos os atos públicos e mesmo privados. Revirava o banheiro em busca de revistas masculinas. O quarto, nem se fala. Proibiu-o terminantemente de conectar-se à internet, o que significava para o rapaz, penso eu, um retrocesso tecnológico e, porque não, cultural. Falar em orkut seria o mesmo que falar a palavra democracia na China, correria sérios riscos. Quase não pegava mais em livros, revistas, quase não assistia mais TV, quase não saía, quase não tudo. Passara a viver de quase e de nuncas. Quase e nunca. Era frustrante. Tão jovem, com um futuro tão brilhante pela frente ofuscado. Adoeceu. Foi parar no psicólogo que o encaminhou ao psiquiatra. Depressão. Gustavo agora quase não comia e o pior, quase não namorava. Mas o problema se deu quando Fabrícia verificou que o psiquiatra era na verdade a psiquiatra. Nesse dia quando os dois voltavam juntos pra casa, a moça surtou. Desorientada diante de tamanha ameaça à sua sensível relação amorosa, disse que se jogaria ao chão para que os carros passassem por cima caso ele não mudasse de médico. Ameaçou e de fato atirou-se ao chão.
Creio sinceramente que a garota alcançaria êxito em sua reivindiação caso o carro que a poucos metros se aproximava estivesse em condições de frear.
Escrito por Josué Mendonça às 03h13
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Bilhete funerário ou ambiguidade assassina.
Antônio esperava Fabiana no altar. Nunca houve nem haveria dia mais feliz em sua vida. O terno fora comprado pelo pai, Goldofredo, cujo olhar não admitia jamais qualquer tipo ou sombra de imperfeição nos bens que adquiria. Era um homem distinto, pelo menos se esforçava em passar essa imagem, mas sofria internamente pelo fato de ser injustamente acusado por todo o bairro de ser um homem cheio de melindres, pomposo e adorador do luxo que não possuía. Já a mãe, dona Gorete, costureira desde os treze anos, amava quando saía com o marido pra comprar um par de sandálias uma vez por ano. Era sensacional. Embora se assustasse frequentemente com o barulho e movimento dos carros e precisasse tomar remédios para combater a tontura e mal estar provocados pela aventura de sair à rua, sentia-se no fundo feliz ao caminhar pela cidade de mãos dadas com o marido, aliás, quase pendurada ao seu braço esquerdo. Era uma mulher simples. Contentava-se até com o que sobrava do nada. Tinha ainda a vantagem de ser uma excelente dona de casa. Mercado de trabalho talvez soasse aos seus tímpanos como a “Terra do Nunca”.
Os dois estavam lá, esbanjando emoção nos sorrisos trêmulos, lenços e olhos avermelhados. Pareciam dois pombos, admirando a igreja, suas pinturas e resquícios de ouro. Seu Goldofredo, como sempre, cumprimentava os convidados com a seriedade e postura de um general. Já dona Gorete, sorria delicadamente, inclinando a cabeça ora pra um lado, ora pro outro, demonstrando uma afabilidade até com os estranhos como se já os conhecesse há pelos menos três séculos.
Antônio, por sua vez, continuava lá, estático feito um cabide, sério, com um leve ar de emoção. Mas, na verdade, estava controlando-se. Amava a Júlia. Ah... Como a amava. Na última vez que foi visitá-la deu-lhe um buquê de rosas que quase lhe custou o nome no SPC. Isso mesmo, Serviço de Proteção ao Crédito. Antônio era pobre, mas só materialmente. Tinha um coração cheio de amor, além de possuir qualidades que o tornavam um home de valor, como ser educado, trabalhador, esforçado e fiel. É preciso que se ressalte isto, fiel. Antônio jamais traíra Fabiana, nem quando queria. Nessas ocasiões sua consciência o acusava fortemente e ele chegava sempre a ela com aquela cara de quem pede perdão pelos pecados que a imaginação cometeu. Adorava olhar Fabiana, em qualquer situação ou circunstância. Apreciava cada movimento, cada olhar, cada palavra exprimida por aqueles lábios doces e carnudos. Gostava de vê-la penteando-se, jogando pra trás seus longos e sedosos fios pretos que quase batiam na cintura. Achava bonito até mesmo quando a via mal-humorada ou irritada. As expressões de raiva, tristeza ou agressividade de Fabiana, nada mais eram que traços de sua beleza inversa. Fabiana era pra Antônio o que o terno do casamento era pra seu Goldofredo, indiscutivelmente uma entidade perfeita.
Ocorreu que, num dado momento, naquele em que os semblantes dos convidados começam a variar entre expressões de cansaço e caras de enterro, Antônio deu-se conta de que Fabiana estava mais atrasada do que rezava o protocolo. Por que tanto atraso? Acontecera alguma coisa? O que teria acontecido? O tempo foi passando, o ponteiro do relógio agora corria à velocidade da luz e consequentemente as interrogações já começaram a desenhar-se na testa dos que aguardavam a cerimônia, desde os mais inocentes aos mais maliciosos.
Os pés de Antônio já travavam grande luta com os sapatos. Sua face agora só transmitia sinais de preocupação e angústia. O que estava acontecendo? Onde estava Fabiana, a mulher de sua vida e pós-vida? Começou então a sentir uma forte dor no coração. Diga-se de passagem, era um rapaz meio sensível, qualquer coisa o fazia sentir falta de fôlego e a suar frio. Mas neste caso, não era qualquer coisa, eram horas inexplicáveis de atraso no dia da sua iminente transição para a felicidade sem fim. Seu Goldofredo aproximou-se do rapaz e num ato de extrema sensibilidade e compreensão, pediu-lhe gentilmente que não exagerasse nos movimentos para não correr o risco de amassar o terno. Dona Gorete já havia sentado. Antônio se perguntava por que as pernas de sua mãe estavam trêmulas. Saberia ela de alguma coisa? O tremular das pernas seria a confissão óbvia de um segredo guardado? Nesse instante de dúvida irrespondível um menino vindo da rua entrou apressadamente no recinto e, correndo em direção a Antônio, entregou-lhe um pequeno papel rasgado de caderno. Era um bilhete, maldito bilhete! A dor no coração de Antônio foi aumentando, aumentando até que o terno empoeirou-se ao beijar-se repentinamente com o chão. Seu Goldofredo não teve forças para levantar-se da cadeira onde automaticamente despencara, muito menos para tirar o rapaz do tapete.
A igreja levantou-se num movimento sincrônico emitindo um sonoro “ooh...!!” Alguém, não lembro quem, chamou a ambulância que levou o rapaz ao centro cirúrgico mais próximo. Na verdade, Antônio tinha sérios problemas de coração. Já havia se submetido a três intervenções cirúrgicas.
No hospital, familiares, amigos e (fãs!) aguardavam notícias que rapidamente chegaram. Antônio morreu. Triste dia. Triste fim.
No bolso do terno de Antônio o bilhete de Fabiana: “Amor, eu sempre te amei.”
Antônio morreu e até hoje não se sabe exatamente se fora de amor ou de perversa ambiguidade.
Escrito por Josué Mendonça às 03h47
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