 |
|
|
Pombo, mendigo e francesinho.
Gotículas d’água misturadas à areia escorriam por entre as pedras desencontradas que formavam o chão da Praça Municipal. Lama. Nas escadas do antigo Palácio do Governo, um homem de cara embrutecida, encardida, sustentando um bigode preto e espetado, observava com um olhar morto o movimento colorido dos turistas que por ali passavam. Meninos pediam esmolas de dez ou vinte centavos para comer. Uma mulher na calçada, já na esquina da rua Chile, puxava um peito murcho para dar de mamar ao filho grudento e barrigudo. Acho que estava doente. Um velho baixinho, com poucos dentes, mas risonho, vendia picolé. Próximo ao Elevador Lacerda uns hippies vendiam seus brincos, colares e pulseiras. Fui até próximo à lanchonete. Lá, vi uma italiana gorda, cheia de colares, de bochechas coloridas revirando a bolsa à procura de algo que não consegui descobrir o que era.. Ao lado, duas crianças: uma menina e um menino, ambos francesinhos, branquinhos, loirinhos, de olhos azuis e bochechas rosadas sorviam seus deliciosos sorvetes de cajá e morango, suponho. Do outro lado, sentado, um casal de namorados. Num ato descuidado, a moça deixou sua blusa manchar pelo sorvete. O namorado levantou-se rapidamente a fim de tomar as providências necessárias para reparar o dano, pois a moça ficara muito constrangida com aquela situação. Um menino pretinho, pés no chão, cabelo enroladinho, dentes cheios de cárie, olhos esbugalhados, acompanhava a cena, empinando a barriga para frente que ajudava a sustentar o caixote dos queimados que vendia. Ali por perto, uma jovem paulista bem vestida, branca, cabelos lisos, bolsa de couro, perfeitamente maquiada, contava com suas unhas muito bem pintadas seus fios de cabelo enquanto esperava o namorado voltar da lanchonete. Havia turistas de todas as nacionalidades. Italianos, franceses, americanos, japoneses, argentinos, com também do Brasil. A maioria carregando suas máquinas fotográficas para lá e pra cá. Algumas senhoras, algumas, repito, olhavam pra aquelas crianças pobres com olhares meio espantados. Aquelas criaturinhas eram muito diferentes de seus netos... Escorei-me na mureta que dá de frente para a Baía de Todos os Santos. Lá em baixo, os casarões velhos da Ladeira da Montanha, o Mercado Modelo, os ônibus e as pessoas minúsculas. De lá de cima tudo é minúsculo e podemos dominar aquelas águas azuis e tranqüilas sempre lindas e alcançar com as pálpebras a ilha de Itaparica. Soprava um vento ameno de final de tarde. Olhei para a Câmara Municipal e lembrei de um movimento de estudantes há uns dois anos atrás, que protestavam contra o aumento das passagens de ônibus. Enquanto os policias caminhavam rumo à escadaria da Câmara, os estudantes cantavam: “Marcha soldado cabeça de papel, quem não marchar direito vai preso no quartel...” Mas não demorei muito com essas lembranças. Logo, voltei a atenção para o outro lado onde os pombos realizavam sua trajetória de sempre: Vinham até o chão da praça comer depois subiam no cume do antigo Palácio do Governo. Desciam e subiam. Mais à frente, a praça Tomé de Souza. Lá o chafariz divertia as crianças. Os velhos e os guardas arrastavam seus pés e barrigas. Sentada de pernas cruzadas num banco e com um vestido cor-de-rosa desbotado, uma prostituta velha, magricela e aparentemente faminta, tragava um cigarro fedorento. Quase no centro da praça, o busto do bispo Sardinha. Toda vez que o vejo, me vem à cabeça inevitavelmente a cena cruel de sua morte: há uma versão da história que diz que o bispo fora vítima do canibalismo dos índios. Até hoje não se sabe a verdadeira estória. Mas o fato é que não há dia em que eu pise ali e não me venha à mente a imagem do bispo sendo devorado pelos índios...
Na ladeira do pelourinho, sentados em frente à entrada da antiga e primeira faculdade de medicina do Brasil, outros hippies estendiam suas toalhas de colares e brincos no chão. Desci até a Fundação Casa de Jorge Amado. Estava fechada. Voltei até a Praça Municipal e pude contemplar as mesmas cenas de sempre: os turistas coloridos e deslumbrados com as paisagens coloniais, as crianças pedindo moedas para comer, os francesinhos de bochechas rosadas, o desfile das moçoilas do sul e sudeste, os casais de namorados, os pombos subindo e descendo, os desempregados, os peitos murchos das mulheres mendigas, pretos e velhos de olhares perdidos e minguantes e o vento, o vento ameno da Praça que, de alguma forma misteriosa, conseguia tudo harmonizar.
Escrito por Josué Mendonça às 02h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Liberdade e Aquário
Os olhos pequeninos de Clarissa miravam os peixinhos no aquário que seu pai lhe comprara de presente. Havia muitos, de diversas cores, de diversos tamanhos. Era a primeira vez que via um aquário. Com tamanha curiosidade passou a observar tudo. As bolinhas de ar que se formavam ali dentro, as pedrinhas coloridas, as plantinhas, uma bela casinha, a luz que descia suavemente e espalhava-se por toda a água. Se fosse um adulto que estivesse por ali, eu diria que haveria um seqüestro de paz. Mas no caso da criança não. Clarissa e os peixes compartilhavam paz, numa troca em que os dois mundinhos se misturavam e se confundiam. Naquele silêncio total que só existia ali e só ali poderia ser sentido, Clarissa contemplava estática aquela forma de vida e, no reflexo de suas claras pupilas, era possível ver peixinhos passeando pra lá e pra cá. Um vento intruso, mas também cúmplice do silêncio, penetrava sorrateiramente através de uma janela no quarto, levantando em ondas os finos cabelos pretos que lhe desciam sobre a testa. O mundo agora se concentrava naquela interação e a ela se resumia. Clarissa notava que os habitantes daquele mundo não morriam afogados. Gostavam de nadar porque não paravam quietos. Às vezes subiam até a superfície como que buscando ar para sobreviver. Deslizavam na água de uma maneira que ela não entendia como. Não tinham braços. Não tinham pernas. Como nadavam então? Alguns, sentindo-se vigiados ou ameaçados, grudavam o rosto no vidro, arregalavam olhos de detetive e pareciam querer comer justamente as pupilas da menina. Outros pareciam estar beijando o vidro. Enquanto outros, de longe passavam. Clarissa ouvira de seu pai que o correto seria colocar sempre pouca comida porque se comessem demais morreriam. (Peixes são gulosos e não enxergam limites em suas refeições). Aprendera também que não deveria batucar no vidro nem com a ponta das unhas porque isso poderia deixá-los surdos. A água deveria ser trocada de quando em quando e nunca deveriam também misturar certas espécies para não se confrontassem. Mas naqueles instantes Clarissa não pensava em regras. Apenas imaginava-se peixe, pequenininha, com toda aquela habilidade para nadar, colorida ou transparente, ágil. Num estalo de dedos mergulhou no aquário. Embora no início sentisse uma certa estranheza a tudo que a envolvia, logo superou esse sentimento e já não se importava porque agora era de fato um peixe e estava no seu lugar. Aqueles seres, outrora estranhos, passaram a ser seus amigos e com eles aprendia todos os mistérios da vida aquática, mesmo dentro daquele recipiente minúsculo Por lá ficou durante vários minutos, desbravando e divertindo-se. É verdade que a aventura fora excitante, mas chegara um certo momento em que Clarissa sentira-se incomodada. O aquário, embora fosse um lugar aparentemente divertido, passou agora a ser visto como uma grande prisão. Clarissa não tinha liberdade para ir além daquele espaço. Aquelas quatro paredes de vidro tornaram-se o limite de sua existência. Ah... isso irritou profundamente a menina que decidiu rapidamente voltar a ser o que era. Enxugou-se, ganhou novamente braços, pernas e dedos, sentiu de volta os pés nos sapatos de boneca pretos, o vento em sua franja, o oxigênio livre de água. A vida não teria sentido sem liberdade, constatou a pequena Clarissa. Foi aí que tomou uma decisão: a de segurar o aquário pelos lados, posicionar sobre o vaso sanitário e garantir àquelas criaturinhas sua plena liberdade.
Escrito por Josué Mendonça às 00h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Amendoim e Administração
Eu acabara de sair da faculdade. No semáforo, o carro foi obrigado a parar. Teria que aguardar alguns segundos. Já era um pouco tarde, por volta de 22:20 hs. Como todas as vezes que saio da faculdade, meus pensamentos flutuavam, entrelaçados a teorias e conceitos sobre organizações, buscando sempre resposta sobre métodos mais eficientes e eficazes para empreender e gerir empresas. Os pensamentos saltitavam entre cenário econômico, modelos de gestão, oportunidades de negócio, competitividade, tecnologias, governo, globalização.Nesses momentos a racionalidade dominava e só via números, gráficos, resultado de pesquisas. Nada era mais importante do que rentabilidade, desempenho, crescimento. Como receber financiamento, controlar, organizar, planejar, criar? Entretanto, em meio aqueles poucos segundos em que aguardávamos (eu e meu colega que dirigia) a luz verde acender, um vulto fez minha cabeça girar para a direita. Ainda bem que não era um fantasma nem um bandido, mas uma menina de seus nove ou dez anos que se aproximava. O vidro estava levantado, mas havia uma pequena brecha. Ela estava vendendo amendoins e me ofereceu, porém eu quase que instintivamente fiz um gesto de não com a cabeça. Não gosto de amendoim. O sinal abriu e seguimos em frente, mas como num fenômeno sobrenatural de dissociação, meu espírito ficou no semáforo. Meus pensamentos, agora desmontados, se desprenderam no ar das idéias sobre lucro e produtividade e despencaram feito uma taça de vidro no chão, esfarelando-se. A menina não teve contato comigo, nem com a ponta dos dedos, mas sua figura, a da menina que vendia amendoim a uma hora daquelas, naquela idade, sozinha num semáforo, fez questão de penetrar em minha cabeça para brigar no pulso com idéias bonitas e convencionais que teimavam em negar sua existência. Em seus olhos pude ver a cor da fragilidade, do abandono, da privação e ao mesmo tempo ver nos meus olhos e nos da sociedade a cor da insensibilidade, da miopia, do egoísmo, da hipocrisia. O vidro do carro mais parecia um muro de concreto que separava um corpo protegido e confortável de uma criança entregue à sorte de um mundo duro e injusto. Talvez ela estivesse com fome, talvez estivesse com frio, talvez estivesse doente. Meu espírito ficou alguns instantes por lá, junto a ela em meio aqueles carros, tentando vender amendoim, recebendo nãos, numa condição não superior a miserável. Mas ele não poderia ficar muito tempo por lá. Logo meu corpo chegaria em casa e precisaria dele de volta. De volta aos meus projetos, à minha rotina, à normalidade da minha vida.
Escrito por Josué Mendonça às 19h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Foto de casamento
Eu estava lá sentado no banco da igreja vendo minha mãe casar-se com o homem que a tornaria a pessoa mais feliz desse mundo e cujo casamento representava o início de uma vida plena e cheia de realizações. Eu estava lá, entregando as alianças, conversando com o vizinho de cadeira, observando aqueles homens e mulheres testemunhando com suas sagradas assinaturas o vínculo eterno de duas almas entregues ao amor. Eu circulava por toda igreja. Conversava com o fotógrafo. Explicava a ele o melhor ângulo para retratar aquele momento tão especial. Não havia tecnologia sofisticada na época, mas havia amor, vontade, esperança, sonhos...e isso era mais importante e, com certeza, seriam retratados mesmo naquelas fotografias em preto e branco. Foi através de uma dessas poucas fotografias em preto e branco que eu estive lá, consertando a gravata meu pai, contando as horas para que fosse celebrado o matrimônio. Era engraçado o bigode de meu pai naquela época, falo de mais ou menos trinta anos atrás. Tudo agora está fora de moda, acho... mas naquela época, naquele momento tudo estava belo e perfeito, tudo era esplêndido. Se eu estivesse lá de fato, diria amém à união, levaria os dois nos braços até o altar, talvez até derramasse lágrimas. Não tive essa oportunidade, mas, mesmo assim, hoje posso ir até lá e é incrível como essa viagem é real. A fotografia captou a emoção. Benditos sejais vós fotógrafos de casamentos. Benditas sejam vossas lentes e vosso talento. Bendita seja vossa tecnologia porque conseguiram registrar a alma, a alma nos olhos de minha mãe. Olhos expressivos como seriam os meus quando criança: meigos, esperançosos, suaves, bondosos, ingênuos. Olhar sem dor, sem mágoas, sem sofrimento algum. Ignorava as dificuldades, as discrepâncias, os segredos do outro que a prova da vida revelaria. Mas agora não importa o futuro, importa aquele momento. Os dedos entrelaçados, os sorrisos mútuos, as alianças compradas com todo carinho. Os filhos (ela queria quatro, teve três) e o futuro planejados, os presentes recebidos, os votos de felicidades, a emoção contida para não borrar a maquiagem, a benção recebida. Mas nada tão significante nas fotos quanto o olhar de minha mãe, jamais visto em filme de princesas e cinderelas, jamais interpretado por atriz alguma de Hollywood, jamais descrito por poeta algum: o olhar de quem acreditava que seria feliz para sempre. Olhar de noiva é assim, pelo menos foi o de minha mãe: um olhar de quem acreditava muito no casamento (claro), no ser humano, no relacionamento, nos sentimentos, no vínculo, no sentido inequívoco da existência, na conspiração positiva do universo, no destino, no amor, em tudo. Sua alma era um lago cristalino onde deslizavam patinhos sob uma luz suave de primavera, com flores colorindo tudo ao redor. O chão da igreja era de pedras preciosas e o altar aparecia envolto num arco-íris. Os filhos seriam todos anjos, um mais lindo que o outro (sobre isto há evidências), nenhuma crise abalaria tamanho comprometimento e desejo de estarem unidos. Meu pai, claro, era a pessoa ideal.
Esse olhar, obviamente, ignorava o futuro de desentendimentos que levariam ao divórcio quinze anos depois (era pra ser antes, mas esperaram as crianças crescerem).
Mas dessa fase cinzenta não quero falar. Quero voltar à alma, porque é nela que a vida é sonhada e onde reunimos energia para buscar o que queremos. Nessas fotos em preto e branco o que vi foi esse olhar e mais nada. Quase nada supera o olhar de uma noiva. É nele que reside a esperança íntima de um futuro feliz. É no olhar inocente, mas esperançoso de noiva de minha mãe que me pergunto hoje sobre quais foram os sonhos que conseguimos realizar como família e quais aqueles que ainda precisamos resgatar.
Escrito por Josué Mendonça às 20h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Com tudo
Com toda luta, com toda dor, amo viver.
Com todas as brigas arrependidas, amo viver.
Com toda história, toda saudade, amo viver.
Com todo sonho já consertado, amo viver.
Com tudo que não posso, tudo que suporto, amo viver.
Com tudo que deixei, tudo que perdi, amo viver.
Com toda desavença e todas discrepâncias, amo viver.
Com toda mágoa, com toda estrada, amo viver.
Com todo medo, todo desprezo, amo viver.
Com tudo o que fui, tudo o que sou e ainda serei, amo viver.
Com tudo que me cerca, me atrapalha e me aborrece, amo viver.
Com tudo o que é real ou imagino, me apavora, não me consola, amo viver.
Amo minha vida, tua vida, dentro de teus sins e teus nãos.
Amo a vida que silenciosa corre entre nós, exuberante, desapegada de nossos sentimentos apreensivos e nosso tenso pensar.
Amo a vida com o mar e qualquer céu que contemplo todo dia.
Amo a terra que piso, a nuvem de algodão, o sol do verão.
Amo a areia fina que escorre entre meus dedos.
Amo a vida no batimento cúmplice do meu coração.
Com tudo que não foi, com tudo que poderia, com tudo que me foge, amo viver.
Com toda confusão, com toda insolação, com toda rouquidão, amo viver.
Amo a vida que corre descontraída entre nós, despercebida, rodopiando, feito criança em parque de diversão.
Amo a vida com tudo o que me foi dado e tudo de que fui privado.
Por fim, amo o fôlego que corre em meus pulmões...
Escrito por Josué Mendonça às 00h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Faxineira insensível
Juliana bateu a porta. Do lado de dentro, Danilo acocorava-se aos prantos tentando juntar no chão os cacos do romance despedaçado. Com que cola uniria? De que forma ficaria? Quantos remendos teria? Tantos cacos espalhados no tapete... O rapaz, temendo que o vento os espalhasse ainda mais, tratou de fechar todas as janelas. Fechou tudo. Procurava por todos os cantos da sala os pedaços espalhados. Tudo revirou. Agrupava-os desordenadamente. Estava difícil. Não teria ajuda. Tantos cacos. Tamanho caos. Cansado por não saber exatamente por onde nem como começar, decidiu deitar no sofá, e logo pegou no sono. Ao acordar, percebeu que a sala estava limpa. Alguém a havia varrido. Profundamente desolado e decepcionado, pensou: “Insensível faxineira! O meu amor eterno e verdadeiro, além de despedaçado, agora abandonado numa lata de lixo...”.
Escrito por Josué Mendonça às 03h59
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Estetoscópio e testosterona.
Lucas aguardava a sua vez. Iria fazer um exame admissional. Irritado com o calor da sala onde estava, sentara-se justamente em frente a um ventilador e lá ficou até quando foi chamado. Dirigindo-se em passos largos à sala, suplicava mentalmente que aquela consulta fosse realizada em meio segundo. Não gostava de clínicas, até o momento em que entrou na sala. Nesse instante, todos os preconceitos, teorias, formulações, princípios, valores, crenças, argumentos, filosofias, conceitos contra consultórios esvaziou-se feito pneu furado. Estava frente a frente com o esplendor da criação divina. Antes que as pernas trêmulas o atirassem ao chão, rapidamente resolveu sentar. Sentou e respirou fundo. A médica era uma jovem recém-formada. Vinte e poucos anos. Um retrato único do milagre da natureza. Olhos azuis onde Lucas mergulhava e depois ficava boiando, boiando, boiando... Os lábios eram doces (pelo menos assim os imaginava) cintilavam à luz da lâmpada fluorescente, eram um convite tentador feito a maçã do Éden. Cada palavra que saía de seus lábios chegavam aos ouvidos do garoto como o som de uma harpa, a soma das melodias mais suaves e harmônicas do mundo, a voz de uma fada. Olhava seus dedos que pareciam movimentar-se em câmera lenta. Olhava a cor, o formato, o tamanho e a espessura de suas unhas. Olhava suas orelhas segurando alguns fios de cabelo que teimavam em vir pra frente, observando seu desenho e os canais por onde poderiam transitar suas tolas palavras de amor. O nariz era perfeito, um tobogã por onde seu dedo indicador deslizaria até atingir a maciez de uma boca impenetrável.
Olhava o pescoço... quantos beijos daria...
- “Vamos”?, perguntou a jovem médica.
Lucas, voltando ao seu estado quase normal, porque nunca ficaria totalmente normal enquanto estivesse ali, confirmou apressadamente e com absoluta convicção:
- Claro, vamos sim!!
A médica então se levantou com o estetoscópio em mãos.
O rapaz, que estava até então com seus batimentos cardíacos normais, começou a sentir sensível alteração. A cada passo que a médica dava em sua direção, aumentava em dez a quantidade de batimentos por segundo. Era uma situação desesperadora. Ele sabia que quando ela colocasse o aparelho sobre seu peito, iria ouvir uma verdadeira escola de samba, mas não conseguia fazer nada contra essa evolução natural. Era irreversível. Milene, como se chamava, enfim chegou ao seu lado. Posicionou-se as suas costas e, inclinando-se para frente, derrubou-lhe sobre a face seus longos e macios fios de cabelo. Imediatamente, Lucas segurou-se nos braços da cadeira. Apoiou bem os pés no chão. Seu corpo estava teso. Era inútil a tentativa de controlar o incontrolável. Tarde demais. A moça, delicadamente, enfiou os dedos por baixo de sua camisa e começou a puxá-la cuidadosamente para cima. Pobre rapaz, arrepiou-se feito gato ameaçado. Estava apavorado! Seu corpo expelia litros de suor e a temperatura do sangue beirava a da superfície solar. Quando enfim a médica tocou-lhe o peito com o estetoscópio, assustou-se. Parecia de fato uma bomba prestes a explodir. Entretanto, já deduzindo rapidamente o motivo pra tamanha agitação, perguntou-lhe “ingenuamente” se ele estava nervoso por algum motivo.
Alguns segundos refletindo como camuflar a verdade tão primitiva, respondeu engasgando:
- Sim doutora, desculpe-me, mas tenho grande pavor a estetoscópios.
Escrito por Josué Mendonça às 03h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A revolta do sapo
Seu Frederico, o sapo mais velho da redondeza estava cansado. Não da idade, mas das malvadezas que as crianças que por ali moravam faziam com ele. Quando saía de casa e precisasse cruzar a rua, podia preparar-se automaticamente para receber pontapés e ácido úrico, quando não, sal puro. Mas nunca era pra matar, era só pra deixar meio aleijado. Frederico sofria demais. Passara na verdade toda a vida sofrendo com isso e já estava definitivamente exausto dessa vida. Não tinha aposentadoria, não tinha mais mulher que morrera há três semanas vítima de uma brincadeira sem graça, não tinha mais saúde, não tinha mais nada. Cansado de receber chutes e ser salgado quase todos os dias feito uma picanha, Frederico organizou-se com seus companheiros mais jovens a fim de planejar uma conspiração. Tudo foi devidamente planejado e executado numa noite que ficou conhecida na história como “a revolta do sapo-cururu”. Milhares de sapos invadiram as ruas, casas, apartamentos, carros, onde havia brecha os anarquistas entraram. Só se ouvia gritos e mais gritos, todo mundo pulando dentro de casa. Era sapo por cima da cama, sofá, estante, tapete, no banheiro, pra onde se olhava se via sapo, e dos grandes, cururus mesmo. Foi um terror total. As crianças malvadas, agora assustadas, com medo de perderem seus dedos dos pés por mordida de sapo, aprenderam a lição. Nos dias que se seguiram a esse episódio nunca mais salgaram nem chutaram pobres e velhos sapos.
Frederico pôde então morrer em paz. Morreu feliz e insosso.
Escrito por Josué Mendonça às 02h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Cólica de divórcio
Ana Rita estava decidida. Iria dizer naquela noite mesmo que o namoro estava acabado. Gostava de Felipe, admirava-o em alguns aspectos, mas definitivamente não era o homem que ela queria pro resto de sua vida. Já fazia certo tempo que demonstrava desinteresse pelo relacionamento, mas Felipe parecia estar cego. Era o rapaz mais apaixonado da cidade. Não havia sonho em que Ana Rita não estivesse além, é claro, de ser sempre a protagonista. Já havia esquecido o significado da palavra pesadelo e não precisaria jamais de Freud pra decifrar o que era apenas uma cópia autenticada de seu cotidiano. Era preferível que se lhe roubassem a alma a ver-se afastado de Ana Rita. Era o que possuía de mais precioso, sentia-se um homem feliz e realizado, e seria assim sempre que estivesse ao seu lado. Pronunciava o nome da garota quatrocentas e oitenta e nove vezes por dia, tanto nos úteis quanto nos inúteis. Andava meio maltrapilho. O dinheiro que conseguia com rios de suor, escapulia de suas mãos feito bolas de sabão, convertido em presentes e momentos de lazer junto à sua amada. A hipótese de uma separação surgia aos olhos de Felipe como a total demolição de sua estrutura humana, tornaría-se para sempre um tetraplégico emocional. Amava Ana Rita assim, mais do que a si, mas do que a tudo. Por ela tudo faria. Mas o trenzinho da alegria estava chegando à estação final. Ana Rita tomara três caixas de tranqüilizante e estava psicologicamente preparada para pôr um ponto final na estória.
A campainha tocou. O perfume que invadira todo o recinto acusava a presença do rapaz. Ana Rita, que estava sentada no sofá com as duas mãos sobre as pernas, olhando pro quadro à sua frente que retratava um pintor italiano com aquele bigode extravagante, levantou-se num pulo, respirou fundo e dirigiu-se à porta medindo os passos. Tocou na maçaneta, girou. Quando se viu frente a frente com o indivíduo, demorou três segundos e disse... Não, não disse. Convidou-o simplesmente para entrar. Sentados os dois no sofá, Felipe estranhava a frieza dos gestos e expressões de Aninha, como ele a chamava. Incomodado com aquele iceberg que se erguia segundo a segundo entre os dois, resolveu perguntar por que ela estava diferente, embora no fundo não quisesse ouvir a resposta.
Ana Rita decidira previamente que seria direta, em poucas palavras esclareceria sua posição. Olhou nos olhos de Felipe. Com lábios trêmulos que pareciam flâmula ao vento, mãos umedecidas e pernas quase trepidando, Ana Rita sentia um calor que lhe subia dos pés a cabeça. Queria falar, mas as palavras não saíam. Respirava dando pausas. Desviava o olhar pro bigode do italiano e depois pro namorado. Foi quando Felipe correu para a cozinha a fim de pegar um copo d’água. Teve medo de que a menina desmaiasse. Voltou e ela bebeu. Felipe já pressentia que se tratava de algo muito sério. Desconfiava de todas as possibilidades sem querer acreditar em nenhuma. Impaciente e confuso, Felipe já alterava a voz, quase suplicando a Aninha que falasse tudo de uma vez por todas. Pediu, mas se arrependeu. Seu coração gelou instantaneamente e ele não saberia sua reação diante da suposta fatalidade. Coçando o braço esquerdo feito um cão sarnento, Felipe já estava apavorado, com o coração querendo precipitar-se garganta a fora, zonzo com o giro das paredes que não saíam do lugar. Ana Rita, agora mais assustada, não conseguia concretizar de maneira alguma o desejo reprimido. Foi então que resolveu adiar a decisão. Disse solenemente que não estava em condições de namorar nem de conversar naquela noite, pois estava com cólicas e forte dor de cabeça.
Decepcionado, Felipe voltou pra casa, mas no fundo sentia-se aliviado e até mesmo feliz. Afinal, Ana Rita, pensava ele, jamais teria vontade ou coragem de abandonar amor tão puro e verdadeiro.
Escrito por Josué Mendonça às 02h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Ciúme e asfalto.
Fabrícia era uma adolescente ciumenta. Quando ia pra casa do namorado já chegava à porta feito um detetive, olhando pra todos os cantos, esticando os ouvidos, farejando compulsivamente tudo o que poderia exalar cheiro, era algo impressionante, elétrico. Se fora traída em alguma circunstância era muito provável que houvesse vestígios, sinais a interpretar, o que lhe exigia observação cuidadosa em cada mínimo detalhe.
Gustavo, coitado, já abria a porta assustado, temendo ser severamente punido pelos pecados não cometidos nem planejados. Pela forma como lhe abria sempre a porta, pálido e com os olhos arregalados, alimentava ainda mais a desconfiança em Fabrícia, embora seu medo fosse, na verdade, dela puramente. Se tivesse um surto de ciúmes, apanharia ou ficaria de castigo por um longo tempo...
Fabrícia e Gustavo não tinham vida social. Qualquer tipo de relação extra-casal seria intensivamente vigiada e controlada. Não haveria alma nesse mundo que não despertasse ciúmes na menina. Na sala, o controle remoto sempre estava em suas mãos pra mudar de canal diante de qualquer cena ou comercial incitante. Se somassem a censura de todas as ditaduras que o mundo já viveu não se compararia à imposta pela garota. Ela violava impunemente o Estado de Direito Democrático. Nem no Irã haveria tamanha restrição à liberdade... Mas Gustavo, de alguma forma, já estava acostumado a isso. Embora parecesse uma marionete nas mãos da namorada, sentia-se orgulhoso diante do medo que ela demonstrava de perdê-lo. O sentimento de importância, em certo grau, contrabalançava os constrangimentos e momentos em que era exposto ao ridículo. Afinal, aquilo era uma prova de amor, consolava-se Gustavo.
Quando saíam à rua, Fabrícia sempre tropeçava em pedras e calçadas porque definitivamente não olhava pra frente. Mirava apenas nos olhos de Gustavo, rastreando-lhe os movimentos, medindo o ângulo, sentido e direção de cada olhar. Qualquer expressão nova rendia-lhe automaticamente uma série de indagações. Por que está sorrindo? Porque está com essa ou com aquela cara. Por que arrumou o cabelo? Por que virou pra trás? Porque está cantando esta música? Você está pensando em que? Porque está olhando pra mim assim? Era um inferno. Preso à vigilância incessante da namorada, Gustavo sentia dificuldades até de respirar. Era algo sufocante. Começava a sentir-se profundamente incomodado com essa situação. Nada podia. Tudo estava sujeito a análise e questionamentos. Não podia mais movimentar-se, comunicar-se, enxergar, ouvir, chorar, sorrir, pensar, ufa! Respirar ainda podia, até o momento em que não estivesse inalando o cheiro de um perfume vagabundo de uma vagabunda que por eles passasse. Controle total. Gustavo estava absolutamente encurralado no sistema de segurança que a namorada havia desenvolvido. Aliás, ela era o próprio sistema em si, cuja eficiência jamais fora alcançada por tecnologia alguma no mundo.
Acompanhava o rapaz em todos os atos públicos e mesmo privados. Revirava o banheiro em busca de revistas masculinas. O quarto, nem se fala. Proibiu-o terminantemente de conectar-se à internet, o que significava para o rapaz, penso eu, um retrocesso tecnológico e, porque não, cultural. Falar em orkut seria o mesmo que falar a palavra democracia na China, correria sérios riscos. Quase não pegava mais em livros, revistas, quase não assistia mais TV, quase não saía, quase não tudo. Passara a viver de quase e de nuncas. Quase e nunca. Era frustrante. Tão jovem, com um futuro tão brilhante pela frente ofuscado. Adoeceu. Foi parar no psicólogo que o encaminhou ao psiquiatra. Depressão. Gustavo agora quase não comia e o pior, quase não namorava. Mas o problema se deu quando Fabrícia verificou que o psiquiatra era na verdade a psiquiatra. Nesse dia quando os dois voltavam juntos pra casa, a moça surtou. Desorientada diante de tamanha ameaça à sua sensível relação amorosa, disse que se jogaria ao chão para que os carros passassem por cima caso ele não mudasse de médico. Ameaçou e de fato atirou-se ao chão.
Creio sinceramente que a garota alcançaria êxito em sua reivindiação caso o carro que a poucos metros se aproximava estivesse em condições de frear.
Escrito por Josué Mendonça às 03h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Bilhete funerário ou ambiguidade assassina.
Antônio esperava Fabiana no altar. Nunca houve nem haveria dia mais feliz em sua vida. O terno fora comprado pelo pai, Goldofredo, cujo olhar não admitia jamais qualquer tipo ou sombra de imperfeição nos bens que adquiria. Era um homem distinto, pelo menos se esforçava em passar essa imagem, mas sofria internamente pelo fato de ser injustamente acusado por todo o bairro de ser um homem cheio de melindres, pomposo e adorador do luxo que não possuía. Já a mãe, dona Gorete, costureira desde os treze anos, amava quando saía com o marido pra comprar um par de sandálias uma vez por ano. Era sensacional. Embora se assustasse frequentemente com o barulho e movimento dos carros e precisasse tomar remédios para combater a tontura e mal estar provocados pela aventura de sair à rua, sentia-se no fundo feliz ao caminhar pela cidade de mãos dadas com o marido, aliás, quase pendurada ao seu braço esquerdo. Era uma mulher simples. Contentava-se até com o que sobrava do nada. Tinha ainda a vantagem de ser uma excelente dona de casa. Mercado de trabalho talvez soasse aos seus tímpanos como a “Terra do Nunca”.
Os dois estavam lá, esbanjando emoção nos sorrisos trêmulos, lenços e olhos avermelhados. Pareciam dois pombos, admirando a igreja, suas pinturas e resquícios de ouro. Seu Goldofredo, como sempre, cumprimentava os convidados com a seriedade e postura de um general. Já dona Gorete, sorria delicadamente, inclinando a cabeça ora pra um lado, ora pro outro, demonstrando uma afabilidade até com os estranhos como se já os conhecesse há pelos menos três séculos.
Antônio, por sua vez, continuava lá, estático feito um cabide, sério, com um leve ar de emoção. Mas, na verdade, estava controlando-se. Amava a Júlia. Ah... Como a amava. Na última vez que foi visitá-la deu-lhe um buquê de rosas que quase lhe custou o nome no SPC. Isso mesmo, Serviço de Proteção ao Crédito. Antônio era pobre, mas só materialmente. Tinha um coração cheio de amor, além de possuir qualidades que o tornavam um home de valor, como ser educado, trabalhador, esforçado e fiel. É preciso que se ressalte isto, fiel. Antônio jamais traíra Fabiana, nem quando queria. Nessas ocasiões sua consciência o acusava fortemente e ele chegava sempre a ela com aquela cara de quem pede perdão pelos pecados que a imaginação cometeu. Adorava olhar Fabiana, em qualquer situação ou circunstância. Apreciava cada movimento, cada olhar, cada palavra exprimida por aqueles lábios doces e carnudos. Gostava de vê-la penteando-se, jogando pra trás seus longos e sedosos fios pretos que quase batiam na cintura. Achava bonito até mesmo quando a via mal-humorada ou irritada. As expressões de raiva, tristeza ou agressividade de Fabiana, nada mais eram que traços de sua beleza inversa. Fabiana era pra Antônio o que o terno do casamento era pra seu Goldofredo, indiscutivelmente uma entidade perfeita.
Ocorreu que, num dado momento, naquele em que os semblantes dos convidados começam a variar entre expressões de cansaço e caras de enterro, Antônio deu-se conta de que Fabiana estava mais atrasada do que rezava o protocolo. Por que tanto atraso? Acontecera alguma coisa? O que teria acontecido? O tempo foi passando, o ponteiro do relógio agora corria à velocidade da luz e consequentemente as interrogações já começaram a desenhar-se na testa dos que aguardavam a cerimônia, desde os mais inocentes aos mais maliciosos.
Os pés de Antônio já travavam grande luta com os sapatos. Sua face agora só transmitia sinais de preocupação e angústia. O que estava acontecendo? Onde estava Fabiana, a mulher de sua vida e pós-vida? Começou então a sentir uma forte dor no coração. Diga-se de passagem, era um rapaz meio sensível, qualquer coisa o fazia sentir falta de fôlego e a suar frio. Mas neste caso, não era qualquer coisa, eram horas inexplicáveis de atraso no dia da sua iminente transição para a felicidade sem fim. Seu Goldofredo aproximou-se do rapaz e num ato de extrema sensibilidade e compreensão, pediu-lhe gentilmente que não exagerasse nos movimentos para não correr o risco de amassar o terno. Dona Gorete já havia sentado. Antônio se perguntava por que as pernas de sua mãe estavam trêmulas. Saberia ela de alguma coisa? O tremular das pernas seria a confissão óbvia de um segredo guardado? Nesse instante de dúvida irrespondível um menino vindo da rua entrou apressadamente no recinto e, correndo em direção a Antônio, entregou-lhe um pequeno papel rasgado de caderno. Era um bilhete, maldito bilhete! A dor no coração de Antônio foi aumentando, aumentando até que o terno empoeirou-se ao beijar-se repentinamente com o chão. Seu Goldofredo não teve forças para levantar-se da cadeira onde automaticamente despencara, muito menos para tirar o rapaz do tapete.
A igreja levantou-se num movimento sincrônico emitindo um sonoro “ooh...!!” Alguém, não lembro quem, chamou a ambulância que levou o rapaz ao centro cirúrgico mais próximo. Na verdade, Antônio tinha sérios problemas de coração. Já havia se submetido a três intervenções cirúrgicas.
No hospital, familiares, amigos e (fãs!) aguardavam notícias que rapidamente chegaram. Antônio morreu. Triste dia. Triste fim.
No bolso do terno de Antônio o bilhete de Fabiana: “Amor, eu sempre te amei.”
Antônio morreu e até hoje não se sabe exatamente se fora de amor ou de perversa ambiguidade.
Escrito por Josué Mendonça às 03h47
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Cara de ressaca
Marcelo sentou-se no banco da ponta e, com os cotovelos apoiados no balcão, olhava pra Daniele do outro lado que jogava pra trás seus longos e loiros fios de cabelo, enquanto terminava de tomar seu suco de laranja. No instante em que ela, casualmente, olhou na direção do rapaz, desencandeou-se no cérebro deste um processo neuro-químico-físico-elétrico-hormonal instantâneo, que resultou invariavelmente na criação de imagens quase impróprias, mas nem tanto. Marcelo não era pornográfico. Aliás, era recatado até na imaginação, justamente o lugar onde não haveria (que oportunidade!) possibilidade de ser punido nem discriminado por qualquer tipo de assédio sexual ou violação moral, caso fosse assim interpretado.
Embora não houvesse ingerido nenhuma substância alcoólica, Marcelo olhava para Daniele com cara de ressaca, o que equivale a dizer “uma cara de bobo deprimida”. Bobo, pelo deslumbramento. Deprimida, pela crença enraizada de que ainda que tivesse a chance de nascer de novo não alcançaria jamais o perfil mínimo suficiente para se candidatar à vaga de pretendente. Com cara de ressaca e cotovelos no balcão, fazia de si uma figura bizarra e, por falta de um simples espelho, não se dava conta disso. Daniele, pelo contrário, era, aos olhos de Marcelo, a encarnação da “plenitude da magnificência da beleza da natureza cósmica das constelações interplanetárias do infinito do céu que transcendia o universo absoluto e puro”. Imaginava assim. Nada erótico. Muito simples. Todas as musas que já tinha visto ou de quem já ouvira falar atuaram apenas como figurantes dos figurantes no palco em que a “plenitude da magnificência...” pairava. Era um momento especial. Os olhos de Marcelo, coitados, nunca haviam registrado figura tão especial. Ressecados por não permitirem que suas pálpebras piscassem, pareciam olhos de ET, projetados pra fora, comendo cada detalhe, cada centímetro do corpo e pele da pobre Daniele. Nem a boca conseguia fechar. Um corpo imóvel. Uma alma a deslumbrar-se com as portas inatingíveis do paraíso. Marcelo queria que o suco de laranja jamais terminasse, que o ponteiro do relógio sofresse um ataque cardíaco e paralisasse. Por ele, o mundo poderia acabar ali e só restassem os dois.
Pra cada canto de Daniele que Marcelo olhasse era um suspiro. Olhava pra boca, ah.. olhava pro queixo, ah... olhava pro pescoço, ah... olhava pros olhos, ah... Naqueles momentos não pensava mais em nada. Apenas contemplava. Foi a partir daí que, destaque-se, Marcelo deixou de ser ateu. Não seria possível!!! Hipnotizado com todas as curvas e encantos de Daniele, Marcelo não entendia, por mais ginástica mental que fizesse, como um ser humano (?) poderia ser ao mesmo tempo sonho e realidade, ficção e fato, abstração e concretude, fantasia e verdade. Entretanto, o fato mesmo é que Daniele acabou o suco de laranja e, em movimentos rápidos e bruscos, desceu do banco, pegou a bolsa, equilibrou-se nos tamancos e saiu, virando as costas pro seu fã solitário.
Marcelo não conseguiu entender porque ela agira de maneira tão indelicada e indiferente diante de tamanha veneração.
Escrito por Josué Mendonça às 02h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Verde, amarelo, vermelho
Mariana estava mais uma vez naquele poste, cuja luz amarelada confundia-se com a fumaça espessa de seu cigarro. Um cigarro barato, daqueles que acompanham desenhos de caveira no caixão. A noite transcorria bela no movimento dos carros que iam e viam diante de Mariana, com vidros fechados, ar ligado e música suave e romântica. Mas dentro de si, Mariana sentia um inferno de dores e frustrações que pediam mais e mais fumaça pra dentro do que ainda restava de seus pulmões. Carregava no corpo um vestido que talvez já fosse sua sombra e, se algum dia lhe perguntassem: “ei, quem é você?”, ela poderia, sem cometer, sob qualquer aspecto, crime de falsidade ideológica, responder: “eu sou eu e meu vestido”, (vide Ortega y Gasset).
Mas o que me chamava atenção em Mariana era seu olhar, revestido de uma névoa densa que disfarçava os bichos da floresta, um olhar duro e seco, que crucificaria a si e a qualquer alma “viva ou morta” que lhe aparecesse naquela noite.
Mariana comia fumaça e pedia inconscientemente que os céus se abrissem e de lá de cima caísse um raio que partisse ao meio a tudo e a todos. Não havia como tocar em Mariana. Não havia como se aproximar de Mariana. Não havia como ouvir coração em Mariana.
Ela continuava, quase que num ritmo frenético, a jogar pra trás seus poucos fios de cabelo ressecados. Cuspia de instantes em instantes quase no pé. Tossia. Tossia. Encostada no poste, já parecia poste, dura, seca, insensível. Olhava a noite de quem era amante. De fora, ouvia o silêncio de uma avenida indialogável que se abraçava ao seu, sobre gritos sufocados no porão.
Um grilo cantando, a luz amarelada do poste e as outras do semáforo que terminavam por distraí-la: “verde, amarelo, vermelho. Vermelho, verde, amarelo”. Do alto do prédio, uma senhora fechava as janelas e cortinas para não sentir-se invadida pela cores, ruído e vozes da noite. De baixo, Mariana continuava comendo fumaça procurando lembrar da sensação de deitar numa cama macia.
Eu não sabia quem era Mariana.
No outro dia, foi encontrada uma moça abraçada a um poste com batom borrado, pernas arranhadas e um tiro certeiro na nuca.
Escrito por Josué Mendonça às 03h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Em manutenção
Joaquim estava no chão naquela noite. Meteoritos vindo de galáxias distantes pousaram em sua cabeça e ele entregou-se ao chão. De onde vinham aqueles meteoritos? Joaquim não sabia, apenas sentia a dor, as dores em sua cabeça que lhe tirariam o sono naquela noite. Levantou-se, entrou e saiu do quarto algumas vezes e não acharia sentido nem direção naqueles instantes. Perdido, procurava nas estrelas e constelações os reais motivos para tanta pedrada. Joaquim havia falhado e o universo havia o punido com meteoritos na cabeça que o deixariam tonto por algumas semanas. Joaquim não interpretaria a matemática da vida, nem dos astros, nem do cosmos durante aqueles dias. Apenas comprimia-se na dor que lhe consumia a cabeça. Joelhos no chão, suor. Olhos boiando em fina película de lágrima que não transbordava. Comprimia-se em sua dor. Joaquim buscava cometas que o pegassem e o levassem para qualquer galáxia distante, muito distante. Joaquim perguntava-se porque estava ali, porque justamente em sua cabeça, porque novamente. No chão, Joaquim não se sentia nem lixo, que tinha um destino, a lixeira. Joaquim precisava reconstruir-se... Uma vez havia milagrosamente renascido das cinzas. E agora? Joaquim olhava para as cicatrizes, olhava pra frente, olhava pra si. Os olhos comeriam qualquer imagem que elucidasse a razão de tantos meteoritos em sua cabeça durante tantos anos. Abraçou-se a si. Compreendeu-se a si. Mas não bastava compreender, precisava mudar. Joaquim precisava mudar e sua luta era, foi e seria mudança sempre. Joaquim entendia agora Juliana que caminhava sobre pedras e deu-lhe as mãos. Joaquim e Juliana andavam agora de mãos dadas sobre pedras com meteoritos caindo do céu sobre suas cabeças...
Escrito por Josué Mendonça às 22h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
“E o pior é que é”
Seu Zé era uma homem cético, pelo menos ao meu ver com relação a eventos da natureza. Sabia colocar tijolos sobre tijolos em construções mirabolantes e o fazia sempre com muito esmero. Era nordestino do “interior brabo”, mal levantava a cabeça, mal se pronunciava. Pra ele tudo estava sempre bom. Tinha belas filhas e uma esposa meio “avexada”. Numa das vezes em que houve um eclipse lunar ele estava passando uns dias conosco. Eu lhe disse que naquele dia, ou melhor, naquela noite a lua iria sumir através do efeito do eclipse. Primeiro tive que explicar-lhe de maneira científica e prolixa o significado desse evento. Depois quis convencê-lo de que de fato iria ocorrer. Não acreditou. Não sei se por falta de compreensão, por ser cético, ou por pirraça mesmo. Disse-me que queria ver com os próprios olhos. A noite foi passando e eu e seu Zé aguardávamos na varanda de casa aquele momento “mágico”. O que eu achava mais engraçado era que ele olhava pro céu como se estivesse aguardando a volta do Messias ou o fim do mundo, tal era a expectativa e desconfiança que se misturavam em seu olhar. Por mais que eu tentasse convencê-lo de que aquilo se tratava apenas de um acontecimento natural, para ele seria no mínimo sobrenatural.
O tempo foi passando e nada da lua sumir. Seu Zé olhava pra lua, olhava pra mim. Olhava pra mim, olhava pra lua e, fazendo cara de “esse menino quer me enrolar”, aguardava pacientemente o momento em que eu dissesse que tudo aquilo era uma brincadeira. Mas não tardou muito e a lua começou ser “comida”, conforme expressão por ele mesmo usada. Em alguns minutos a lua sumiu e seu Zé, não dispensando sua frase típica, pronunciou: “E o pior é que é!”. Eu, sinceramente, esperava de sua parte uma reação mais entusiasmada acompanhada de palavras novas... Mas, nas verdade, não foram as palavras que falaram, foi a cara de bobo de seu Zé olhando pro céu, agora menos descrente da mágica dos astros e do cosmo. Espalitava os dentes sentado num tamborete e sussurrava: “E o pior é que é””. Gostávamos dele pela simplicidade de sua pessoa. Era um homem pacífico e trabalhador. Sempre de bem com a vida. Foi ele quem construiu nossa casa em Caruaru.
A seu Zé, dedico essa lembrança.
Escrito por Josué Mendonça às 23h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |